Conheça a pequena ilha brasileira que intrigou cientistas pelo alto índice de albinismo

Foto: Reprodução/Câmara dos Deputados

A Ilha dos Lençóis, no Maranhão, se tornou conhecida nacional e internacionalmente por um fenômeno raro: a presença de uma proporção incomum de pessoas com albinismo em sua população. Situada no arquipélago de Maiaú e pertencente ao município de Cururupu, na porção amazônica do estado do Maranhão, a ilha reúne características geográficas, históricas e genéticas que despertaram o interesse de cientistas, jornalistas e curiosos ao longo das últimas décadas.

Inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) das Reentrâncias Maranhenses, a Ilha dos Lençóis possui cerca de 560 hectares. Cerca de 70% de sua área é formada por dunas de areia branca, paisagem que lembra os famosos Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Um terço do território é composto por manguezais, enquanto o restante se divide entre praias extensas e praticamente desertas.

O acesso é exclusivamente marítimo. Durante a estação chuvosa, lagoas se formam entre as dunas, fortalecendo o potencial de ecoturismo. A região também é considerada um santuário natural para aves como jaçanãs, garças e guarás.

A Ilha dos Lençóis (Foto: Maranhão Rural/Reprodução/YouTube)

A fama internacional e os estudos genéticos

A notoriedade da ilha ganhou força na década de 1970, quando um programa de televisão divulgou que ali estaria a maior concentração de albinos do mundo. A partir daí, a comunidade passou a ser alvo de diversos estudos científicos.

O geneticista Newton Freire-Maia, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), registrou uma média de 18 indivíduos albinos em uma população de aproximadamente 450 habitantes nas décadas de 1970 e 1980. O dado representava cerca de 3% da população local, índice que superava em milhares de vezes a média mundial estimada, que gira em torno de 0,005%.

Em 1972, após examinar informações referentes a seis gerações de moradores, o pesquisador concluiu que os primeiros habitantes da ilha eram descendentes de uma mulher portuguesa com albinismo. Com o passar das décadas, o isolamento geográfico da comunidade e a ocorrência de casamentos entre parentes favoreceram a manutenção e a disseminação da mutação genética entre os moradores.

Parte dos estudiosos sustenta que essa prática cultural contribuiu de forma significativa para a elevada prevalência de albinismo registrada na população local. Os estudos indicaram que o tipo predominante na ilha seria uma variação endêmica do albinismo oculocutâneo tipo 2 (OCA-2), caracterizado por pigmentação amarelada mais intensa nos cabelos e pelos, conferindo aparência loura a muitos moradores.

Pesquisadores ligados à Organização Mundial da Saúde também visitaram a ilha na época, levando moradores albinos para avaliação em centros médicos. Contudo, a exposição midiática teve efeitos colaterais: apresentados em alguns contextos como figuras “exóticas”, muitos moradores passaram a ser chamados de “filhos da Lua”.

Moradores da Ilha (Foto: Divulgação/Governo do Maranhão)

A identidade da ilha também é marcada por elementos culturais. Uma das lendas locais afirma que o rei português Dom Sebastião teria se refugiado na região e que os albinos seriam seus herdeiros. A narrativa mítica se mistura à paisagem branca das dunas e à presença marcante de pessoas de pele e cabelos claros, fortalecendo o imaginário popular em torno do lugar.

Mudanças no índice ao longo dos anos

Embora os estudos clássicos apontassem uma prevalência de cerca de 3%, textos mais recentes mencionam que o índice pode ter diminuído para algo próximo de 1,5%. Essa redução estaria associada à migração de moradores para outras regiões e à mortalidade precoce relacionada a complicações de saúde. No entanto, não há dados oficiais recentes do IBGE ou estudos populacionais contemporâneos revisados que confirmem esse percentual atual.

Atualmente, dezenas de pessoas com albinismo nasceram na ilha ao longo das gerações, mas apenas parte delas permanece vivendo no vilarejo.

Rotina simples e infraestrutura limitada

A rotina local permanece marcada pela simplicidade. Os homens tradicionalmente trabalham na pesca, enquanto muitas mulheres se dedicam aos cuidados domésticos. Pequenos comércios funcionam de forma modesta e o turismo é rústico, contando basicamente com uma pousada familiar.

O fornecimento regular de energia elétrica começou apenas em 2009. A ilha ainda não possui sistema estruturado de esgoto nem rede de água tratada. A água doce é retirada de poços escavados nas dunas, muitos deles sujeitos à contaminação devido à circulação de animais soltos.

Albinismo, saúde e risco de câncer de pele

A exposição intensa ao sol é um dos maiores desafios enfrentados pelos moradores com albinismo. A condição genética é caracterizada pela pouca ou nenhuma produção de melanina, pigmento que protege a pele contra a radiação ultravioleta. Como consequência, o risco de desenvolver câncer de pele é elevado.

Em comunidades com forte exposição solar e acesso limitado a tratamento especializado, há relatos de alta incidência de lesões cutâneas que evoluem para tumores malignos. Estudos e reportagens apontam que muitos albinos da ilha desenvolveram câncer de pele ainda jovens, e em décadas passadas não era incomum a mortalidade antes dos 30 anos.

Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde em 2022, existem cerca de 21 mil brasileiros com albinismo registrados na atenção primária do Sistema Único de Saúde. A condição costuma ser percebida nos primeiros dias de vida, devido às alterações na pigmentação da pele, cabelos, cílios e sobrancelhas.

O diagnóstico clínico envolve avaliação dermatológica e oftalmológica, sendo a análise genética necessária para confirmação do tipo específico. As alterações visuais são comuns em todos os tipos de albinismo, já que a mutação afeta o desenvolvimento da retina e das vias do nervo óptico. Entre os problemas frequentemente associados estão astigmatismo, estrabismo, fotofobia, miopia, hipermetropia, nistagmo e visão turva.

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